Dia: 8 de novembro de 2023

  • As contribuições do capitalismo humanista e do Direito Quântico à dogmática jurídica

    As contribuições do capitalismo humanista e do Direito Quântico à dogmática jurídica

    Neste início de novembro, o grupo de pesquisa Capitalismo Humanista e Direito Quântico invade Paris para participar de um encontro acadêmico internacional, a IMODEV-2023 (Improving Public Policies in a Digital World), na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne para as 8ª Jornadas Acadêmicas de Governo Aberto e Desafios Digitais, que vêm sendo realizadas desde 2017, com uma dimensão multidisciplinar. 

    O grupo brasileiro conta com 25 palestrantes, um recorde para evidenciar a importância das pesquisas brasileiras sobre as novas teorias do Direito.

    A trajetória do Capitalismo Humanista começa em 2011, com a primeira edição de “O Capitalismo Humanista – Filosofia Humanista de Direito Econômico”, dos Professores Ricardo Sayeg e Wagner Balera e em seu prefácio, os autores já explicam a aparente antítese da teoria – o capitalismo não poderia ser humanista. Para tanto, buscaram pensadores para consolidar as implicações éticas que justificam o capitalismo a ter uma finalidade humanista.

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    Uma das definições mais assertivas sobre o Capitalismo humanista, incluindo um dos autores, é ser.

    “A Dimensão Econômica dos Direitos Humanos, uma vez que trata-se de tese jurídica que propõem alterações ao regime capitalista, objetivando mudanças de paradigma sociais.

    Culturais e jurídicos, atrelando de forma indelével o referido regime econômico à consecução da dignidade da pessoa humana e aos direitos humanos, em inclusão social econômica plena, construindo-se a pedra basilar econômica, a dimensão econômica da concretização da Sociedade Fraterna, prevista no preâmbulo constitucional, por sua vez dimensão do princípio da fraternidade”.1

    Em síntese, o Capitalismo Humanista  discute a questão de sustentabilidade, elemento presente nos critérios ESG (melhores práticas ambientais sociais e d governança), tanto que na introdução do livro.

    Capitalismo Humanista” já surge com essa preocupação ” O regime capitalista e a economia e mercado são realmente necessários, eficientes e recomendáveis, mas não há como desconsiderar suas principais  implicações negativas, consubstanciadas no esgotamento planetário e na exclusão do circuito econômico, político social e cultual de parcela substancial da humanidade, chegando ao ponto crítico de colocá-la à mercê do flagelo da fome, da miséria e da subjugação, ambos inaceitáveis“.2

    A proximidade do Capitalismo Humanista com o ESG está no fato que ambas as teorias querem mudar culturas, que as organizações impactem positivamente o planeta, para investidores que olhem além do mercado e retorno dos lucros, mesmo em tempos de incertezas geopolíticas e conflitos bélicos. O ESG fomentou o capitalismo dos stakeholders (das partes interessadas) e dos compromissos reais de combate à crise climática, à injustiça social e a uma governança desprovida de transparência e ética.

    As vulnerabilidades das questões sociais levaram a uma busca por uma abordagem mais holística, com fundamentações éticas, para o mundo corporativo, que não pode ignorar a necessidade de prover sua contribuição de forma consistente, mensurando riscos e contribuições que possam contribuir com o bem-estar de todos. 

    Sayeg e Balera lembram em seu livro do economista Jeffrey Sachs, que foi um dos formulados junto à ONU das ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio), substituídos pelos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), presentes na Agenda 2030.

    O Capitalismo Humanista ainda se une ao conceito do Direito Quântico, retomado e expandido pela inquietude de Sayeg e Balera, projetando o conceito da física quântica, matemática e biologia no ecossistema jurídico, que empreguei minha tese de Mestrado para discutir a inclusão do homem digital.

    Essas múltiplas dimensões abrangidas pelo Capitalismo Humanista e o Direito Quântico estão ligadas também ao sujeito complexo, de Edgard Morin. Para ele, “a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico”.3

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    De acordo com Morin, o homo complexus é essencialmente singular e apresenta três dimensões: lógica, ontológica e ética. Esta última nos interessa mais porque envolve os valores compartilhados pelo Capitalismo Humanista, uma identidade humanitária e consciência planetária. Esse complexo indivíduo-sujeito biológico, psicológico e social vive em constante conexão, em um constante vai-e-vem em um mundo onde os saberes são interdisciplinares, transdisciplinaridades e multidisciplinaridades.

    A consolidação do Capitalismo Humanista fica evidenciada pela criação do Grupo de Pesquisa Capitalismo Humanista e Direito Quântico na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com apoio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). 

    Os grupos de pesquisa são considerados essenciais para o desenvolvimento da pesquisa em redes no ecossistema acadêmico, pelo seu aspecto prático na produção de conhecimento e epistemologia e por servir de apoio a todos os cientistas. Também amplia a evolução de novos conceitos, permitindo aos pesquisadores compartilharem dados, resultados e interesses que envolvem o tema, dentro e fora do país.

    Um exemplo é o tema que levo para IMODEV deste ano em Paris: “Desafios e Soluções para a Exclusão Digital no Contexto do Avanço Tecnológico: em Direção a Uma Sociedade Digital Inclusiva e Fraterna”. 

    Neste trabalho há uma preocupação em explorar a interdependência dos critérios ESG com a dimensão digital, como sendo um aspecto fundamental para a construção de um futuro sustentável e inclusivo para o planeta. Ao aplicar a teoria do Direto Quântico enfatizo a coexistência e interdependência dos fatores físico, social e digital do ser humano.


    1 SAYEG, Ricardo Hasson; Luciane Sabatine NEVES: Rodrigo Campos Hasson SAYEG. Uma Análise sobre Aspectos do Capitalismo Humanista a Dimensão Econômica da Sociedade Fraterna – Pontos em que altera o Regime Capitalista e sua Melhor Veiculação para atingir tais Finalidade. Revista Jurídica Unicuritiba. Curitiba.V.4, n.71 p. 23 – 47. Disponível em https://revista.unicuritiba.edu.br/index.php/RevJur/issue/view/246.

    2 SAYEG, Ricardo; Balera, Wagner. O Capitalismo Humanista – Filosofia Humanista de Direito Econômico. São Paulo:KBR, 2011

    3 MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2006.


    Fabio RivelliMestre em Direito pela PUC-SP; MBA pelo INSPER; sócio da Lee, Brock, Camargo Advogados (LBCA); Presidente Comissão Inovação OAB-SP Guarulhos; Pesquisador PUC-SP.

  • Quando o foco excessivo no ambiental afeta os pilares G e S

    Quando o foco excessivo no ambiental afeta os pilares G e S

    O melhor dos mundos seria aquele com matrizes energéticas limpas; onde os carros fossem elétricos, reduzindo a emissão de Gases de Efeito Estufa e a poluição atmosférica e os fogões não dependessem mais do gás (GLP), mas tivessem eletricidade barata, acessível a todos, inclusive aos mais carentes (2,8 bilhões), que usam carvão, querosene e álcool para cozinhar até hoje, segundo o Banco Mundial.

    Isso seria bom para a saúde das pessoas e para o meio ambiente, atenuando as crises climáticas, vivenciadas quase que diariamente, como a seca tão severa na Amazônia, que caminha para ser histórica diante dos danos já causados às comunidades, corpos d´água, biodiversidade e florestas.

    O planeta caminha na trilha da silenciosa transição energética, das energias renováveis (eólicas e solares), que ainda podem ser consideradas caras, mas trazem um retorno ambiental positivo, com a redução de externalidades negativas comparativamente aos combustíveis fósseis. São vitais na transição energética para zero carbono, sendo que os insumos que utilizam são gratuitos, doados pela natureza, embora não haja sol todo dia, nem ventos ininterruptos.

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    O maior inconveniente, portanto, está em armazenar essas energias para atender às demandas por eletricidade cada vez mais vorazes da humanidade.

    Sempre estivemos próximos do consenso que os impactos ambientais causados pelas usinas eólicas e painéis solares fotovoltaicos eram considerados de pequena amplitude sobre o meio ambiente, tanto na fase de instalação quanto de operação. 

    O Brasil, que já tem uma matriz de energética com 47,4% de fontes renováveis, segundo o Ministério de Minas e Energia, vem ampliando as fontes renováveis, principalmente eólica e solar. Neste ano, a capacidade de energias limpas cresceu de forma representativa, com eólicas gerando 3,3 Gigawatts e as fotovoltaicas 3GW para o Sistema Interligado Nacional (SIN) de energia instalada. ¹

    Esse esforço de geração de energia renovável, dentro dos critérios ESG, contou com a colaboração de mais de 2 milhões de placas solares fotovoltaicas instaladas nos telhados de residências brasileiras, gerando 33 GW para alimentar com energia elétrica prédios, comércios, indústrias, propriedades rurais etc. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica. A potência da energia solar já atinge 14,3% da capacidade instalada no país.

    Até aqui, os projetos de energia renovável caminhavam sem atropelos até surgir a pedra no caminho, lembrando o poeta Carlos Drummond de Andrade, até porque todos nós temos as “retinas fatigadas” pelas crises climáticas, lembrando o teórico Gilberto Teles e a descoberta de que a palavra “pedra” tem as mesmas letras de “perda”.

    Assim, uma denúncia foi apresentada ao Ministério Público Federal (MPF) na Paraíba; Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública paraibana sobre os impactos que os complexos eólicos e solares, em implantação no Estado, estão causando em comunidades tradicionais, assentamentos de reforma agrária e territórios quilombolas, podendo colocar em risco o modo de vida dessa população carente.²

    As empresas de energia são suspeitas de negociarem a locação e/ou venda das propriedades rurais individualmente, com cláusula de confidencialidade. A locação é firmada por longos períodos (mais de 20 anos, renováveis automaticamente), em desfavor do proprietário. 

    Preliminarmente, constatou-se que os contratos estabelecidos com pequenos proprietários careciam da devida transparência. Além disso, as usinas eólicas e solares poderiam comprometer paisagens históricas, levar áreas à desertificação e ao êxodo rural, no futuro. Tudo ainda terá de ser apurado, analisado e cobrado para que se cumpra as exigências legais e regulatórias.

    Mas, este caso é bem emblemático no sentido de que a busca pela consolidação do pilar ambiental “E” pode acabar comprometendo a falta de boas práticas de governança, ao promover uma gestão sem clareza, minimizadora de compromissos com a integridade e a transparência em negociações com terceiros e as condições econômicas e financeiras desses parceiros negociais. 

    É claro que as decisões de uma organização impactam a comunidade (pilar “S”) e outros stakeholders, sendo que esse equívoco do “G” leva a um dano social, porque as áreas escolhidas para instalar as usinas pertencem a famílias humildes que, muitas vezes, vivem da agricultura de subsistência e pelo contrato podem ser tolhidas de plantar determinadas culturas, sempre incorporadas à sua vida.

    Alguém pode pensar ser este o caso de uma “jabuticaba” bem brasileira, mas, pelo contrário, já eclodiu em vários locais do mundo. No Brasil, temos uma pedra no pilar da governança, porque as empresas estão atuando de forma opaca com as comunidades quanto às condições da locação e/ou venda das áreas rurais e quilombolas para instalação de usinas de energia renovável. 

    No exterior, há o inverso: resistência de populações diante da instalação das estruturas de parques eólicos e usinas eólicas fotovoltaicas, ou seja, o “S” confrontando o “G” e o “E”.

    A vida no planeta está mudando e a sustentabilidade deve existir a despeito de todo esse “xadrez” com vieses colaterais? Aves diurnas e noturnas morrem ao impactarem com o rotor das pás das torres eólicas em todo o mundo.

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    E, no mar, onde ficam as turbinas eólicas offshore, estão surgindo colônias de mexilhões, que começam a ser estudadas. Independentemente das pedras no caminho, a crescente procura por fontes de energia mais limpa não tem trégua em todo o mundo e serão necessários 26 milhões de acres, somente no Ocidente, para dar conta da demanda.

    A instalação, contudo, da estrutura de tais energias limpas sofrem resistência em diferentes países por motivos completamente diversos. Nos EUA, segundo a Universidade de Columbia, no ano passado, houve um crescimento de 35% do total de leis que impõem obstáculos à exploração de energias renováveis.

    Cada lado tem sua razão e o seu motivo: nos Estados Unidos, a resistência é alimentada pela desinformação. Na China, há excesso de energia gerada, vinculada ao pilar “G” e na Austrália, falta mão de obra qualificada, um vácuo no pilar “S”. ³

    Sem dúvida, os Estados Unidos são o país onde a questão ambiental está mais imbricada com os espectros ESG. Um dos fatores de rejeição aos parques eólicos é o barulho (105 decibéis) na turbina, que a 250 metros de distância cai para 45 decibéis, nível de ruído considerado aceitável pela Organização Mundial de Saúde para o bem-estar do ser humano.

    A questão do barulho deve levar os parques eólicos para longe das cidades, áreas de preservação animal e terras cultiváveis, mas são rejeitados até em regiões desérticas.

    Na Alemanha, a “pedra no caminho” não é o barulho, mas tem cunho ambiental, calcula-se que os parques eólicos matem mais de 100 mil aves e morcegos migratórios/ano,  um dado que muitos consideram especulativo e menor do que o causado por qualquer outro tipo de geração de energia4. A Alemanha é um país que ao extinguir as usinas nucleares tornou-se mais dependente da energia eólica  para atender ¼ do consumo da energia elétrica  do país e tem de observar a dura lei ambiental da União Europeia. 

    A saída tem sido  buscar medidas mitigadoras, como o uso da  Inteligência  Artificial para identificar  pássaros e morcegos e  colocar em operação um sistema anticolisão com as pás das turbinas eólicas.4

    Nessa trilha de aprendizado e críticas à energia limpa dos parques eólicos e usinas solares, também surgem as fake news, e a mais comum é que causariam doenças (síndrome da turbina eólica) e acidentes decorrentes da queda das pás, colocando vidas em risco.

    No entanto, os acidentes ficam no patamar de 1%. Também é divulgado que os parques eólicos emitem frequências baixas de som, não captadas pelo ouvido humano, mas que seriam prejudiciais à vida saudável. Este tipo discussão envolve conflitos nos pilares “G” e ‘S”.

    As redes sociais vêm se tornando um grande difusor dessas falsas informações sobre os painéis solares e parques eólicos.  Segundo o porta-voz do Facebook: Kevin Clister, há uma reação da plataforma e monitoramento dessas falsas informações: “Tomamos medidas contra o conteúdo que nossos parceiros de verificação de fatos classificam como falso. É parte de nossa estratégia abrangente evitar que alegações virais e, provavelmente, falsas se espalhem em nossos aplicativos.

    E não parecem atingir esse limite, já que eles foram compartilhados apenas algumas vezes durante um período de vários anos.”5

    Ao incentivar os diálogos e apontar as mudanças positivas da energia limpa para a atual e futura gerações dentro da harmonia do espectro ESG, fica a lição do pesquisador da Universidade do Maine, Habib Dagher, especialista em energia limpa: 

    Todos nós gostaríamos de pensar que podemos ter energia renovável com impacto zero no meio ambiente – como vocês sabem, não é possível, certo? Portanto, nosso objetivo e nosso desafio é: como podemos minimizar o impacto no meio ambiente à medida que embarcamos neste sistema energético transformacional?”. 6

    Na transição energética para a energia limpa e sustentável, os pilares E, S, G  devem se somar.

    O meio ambiente depende de uma governança robusta e ética, de um pilar social que abra espaço para a manifestação de todos os stakeholders (partes interessadas) e de uma comunicação com atributos ESG, que seja eficaz e capaz de combater a desinformação e falsos mitos e torne a governança transparente. 

    As práticas ESG podem ser a resposta que o mundo espera de empresas de energia renováveis, comprometidas com a sustentabilidade, embora saibamos que sempre haverá pedras e perdas neste caminho , que não podem ser ignoradas.


    ¹https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/brasil-bate-recorde-de-expansao-da-energia-solar-em-2023

    ²https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2023/03/28/impacto-socioambiental-de-usinas-eolicas-e-solares-na-paraiba-e-apurado-pelo-mpf-dpu-e-dpe.ghtml

    ³https://www.nytimes.com/interactive/2023/08/12/climate/wind-solar-clean-energy.html

    4 MORTES DE PÁSSAROS/ milhões

    Wind turbines, 2020

    1.17

    Wind turbines, 2050*

    2.22

    Communication towers

    5

    Automobiles

    60

    Pesticides

    67

    Buildings

    100

    Cats

    365

    *Based on EIA Annual Energy Outlook 2021

    Source: A. Manville, US Fish and Wildlife Service / American Bird Conservancy / Cornell Lab of Ornithology / EIA

    https://www.energymonitor.ai/renewables/weekly-data-how-many-birds-are-really-killed-by-wind-turbines/?cf-view

    5https://www.npr.org/2022/03/28/1086790531/renewable-energy-projects-wind-energy-solar-energy-climate-change-misinformation

    6https://composites.umaine.edu/2023/08/21/umaines-dr-habib-dagher-featured-in-nyt-for-breakthrough-in-floating-wind-turbine-technology/


    YUN KI LEE – Sócio da Lee, Brock, Camargo Advogados, mestre em Direito Econômico pela PUC-SP e professor de pós-graduação em Direito